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Emergência sanitária acabou, mas a tirania continua

Por Cristina Graeml
Jornalista e Colunista da Gazeta do Povo

A emergência sanitária no Brasil teve fim em abril. Foi anunciada em pronunciamento do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e recebida com alegria pelos brasileiros, mas nem todos os prefeitos, gestores de órgãos públicos, reitores de universidades, promotores de justiça e diretores de escola entenderam que já podíamos voltar a circular como antes, ainda que seguindo alguns cuidados.

Até hoje há lugares em que as pessoas são obrigadas a usar máscaras ou apresentar passaporte da vacina. Isso mesmo depois que governadores e prefeitos autorizaram e patrocinaram festas de carnaval, promovendo aglomerações.

Como muitos políticos também curtiram a folia, era de se esperar que os atos tirânicos, autoritários, desumanos até, tivessem ficado no passado, mas, não. Infelizmente os tiranos gostaram de “brincar” de controlar pessoas e as perseguições seguem em vários lugares do Brasil.

A título de “proteção da saúde” punem, segregam, causam constrangimento ou, até pior, deixam famílias sem sustento pelo simples prazer de dizer: eu mando. E o mais revoltante: alguns impõem regras duríssimas para os outros, mas eles próprios não seguem essas regras.

Demitidos por falta de vacina

Esta semana, em Curitiba, o prefeito Rafael Greca (União-PR) assinou a demissão de dois servidores públicos. Eram concursados, portanto, tinham estabilidade no emprego, mas ousaram não se vacinar contra Covid. Exonera!

O mais absurdo disso é que são dois servidores que durante toda a pandemia estiveram na linha de frente, enfrentando o vírus com as poucas proteções e informações que havia, sem abandonar os pacientes: um médico e uma técnica de enfermagem.

Além de não levar isso em consideração, o prefeito também ignorou a lei estadual que proíbe o passaporte da vacina em todo o Paraná. A lei foi aprovada e sancionada em abril, antes mesmo de o ministro da Saúde decretar o fim da emergência sanitária no país. A prefeitura de Curitiba prefere seguir um decreto exigindo a vacinação de todos os servidores públicos municipais, mas decreto não é lei.

É claro que se esses servidores recorrerem à Justiça, se ainda existir Justiça, vão ganhar a causa. O prefeito poderá ser obrigado a reintegrar a técnica de enfermagem e o médico aos postos de trabalho, engolir em seco e pagar indenizações, caso a Justiça estipule indenização por danos morais.

Nós, contribuintes, vamos ter que pagar pela irresponsabilidade, incompetência e tirania do gestor. Fico me perguntando: para quê isso? Por que causar tamanho constrangimento para pessoas que, até onde se saiba, trabalhavam corretamente, salvaram muitas vidas na pandemia e também antes dela. Por que criar um provável imbróglio jurídico à toa? Quem o prefeito pensa estar salvando com tamanha arbitrariedade?

Outros casos

A Gazeta do Povo – um dos raros jornais do Brasil que denunciam as perseguições e a segregação absurdas impostas por governantes, gestores de órgãos públicos ou diretores de instituições de ensino – tem inúmeras reportagens publicadas nos últimos meses. Seguem alguns títulos só para mostrar a que ponto chegamos.

  • Professora de escola municipal é exonerada em SC por não se vacinar
  • Pai é impedido de acompanhar nascimento do filho por falta de vacina
  • Justiça do Trabalho mantém demissão por justa causa de funcionária que não se vacinou contra Covid
  • TST não vai cobrir tratamento para Covid-19 de servidores não vacinados

Para conhecer outros absurdos ainda cometidos pelo Brasil, clique no play da imagem que ilustra esta página. Você vai descobrir que crianças pequenas ainda estão sendo obrigadas a usar máscaras em escolas de Campinas e Juiz de Fora, entre outras cidades. E que a Universidade de Brasília (UnB) adotou um selo para vacinados, deixando ainda mais explícita a segregação.

Se você é daqueles que aprovam toda essa tirania e se deixou aprisionar pela ideia de que está protegido ao se submeter a controle de prefeitos, reitores, quem quer que seja, talvez possa refletir a partir deste texto literário, retirado da obra Os Irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski. “Somos assim: sonhamos o voo, mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o ‘não ter certezas’. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.”

Se você está certo de que está protegido na gaiola, tudo bem. Mas deixe os outros voarem. Há quem ainda preze pela liberdade como nosso bem maior.



Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/cristina-graeml/emergencia-sanitaria-acabou-mas-tirania-continua/

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